Por Yuri Schein
Todo cristão que se aprofunda no pressuposicionalismo mais cedo ou mais tarde esbarra na famosa controvérsia entre Gordon Haddon Clark e Cornelius Van Til, ocorrida nos anos 1940 na Igreja Presbiteriana Ortodoxa. O que parecia uma discussão interna sobre ordenação se revelou um confronto profundo sobre a natureza do conhecimento, da revelação e da relação entre Deus e o homem. E aqui, como sempre, a questão central é: qual é o axioma último e como ele se sustenta sem contradição?
Gordon Clark defendeu com rigor que a revelação bíblica é proposicional e que o homem pode conhecer verdades idênticas às que Deus conhece, no conteúdo. Para Clark, a lógica não é algo criado acima de Deus nem abaixo Dele de forma arbitrária: ela reflete o próprio pensar de Deus. Quando a Bíblia afirma que Deus é luz e nele não há trevas nenhuma, ou que Cristo é o Logos, isso não é mera analogia vaga. São proposições verdadeiras. O homem, feito à imagem de Deus, participa de um conhecimento univocal no ponto de contato: a proposição que o homem crê é a mesma que Deus crê. Clark via nisso a única forma de evitar o ceticismo. Se não há nenhum ponto de identidade entre o que Deus sabe e o que o homem sabe, então caímos no agnosticismo disfarçado de piedade.
Van Til, por sua vez, insistiu na distinção Criador-criatura de modo tão radical que transformou o conhecimento humano em puramente analógico. Segundo ele, o homem nunca conhece da mesma forma que Deus, nem mesmo no conteúdo das proposições. Tudo é dependente, ectípico, e há um abismo qualitativo. Daí surgiram as famosas afirmações sobre paradoxos: soberania divina e responsabilidade humana seriam irreconciliáveis para a mente finita, devendo ser abraçadas pela fé sem tentativa de harmonização plena. Van Til acusava Clark de racionalismo. Clark respondia que Van Til flertava com o irracionalismo e abria a porta para o fideísmo.
O problema grave na abordagem de Van Til é que, ao proteger demais a transcendência de Deus com a analogia, ele enfraquece a clareza da revelação. Se nenhuma proposição que o homem conhece coincide com o que Deus conhece, como podemos ter certeza de que a Bíblia nos comunica verdade objetiva? A Escritura deixa de ser o axioma firme e se torna um instrumento que aponta para algo que nunca captamos diretamente. Isso gera instabilidade. O pressuposicionalismo de Clark, ao contrário, mantém a Escritura como sistema axiomático coerente, onde a lógica é ferramenta, não senhora, mas também não inimiga. Deus pensa logicamente porque Ele é a própria Lógica encarnada no Logos.
A controvérsia expôs uma fissura que ainda marca os campos reformados. Muitos que seguem Van Til hoje caem em paradoxos constantes, defendendo doutrinas com uma mão e dizendo que elas são humanamente incompreensíveis com a outra. Isso enfraquece a apologética e a pregação. Clark, com sua ênfase na Escritura como revelação proposicional clara, oferece um fundamento mais sólido para o cristão que quer pensar de forma coerente. Não se trata de reduzir Deus à razão humana, mas de reconhecer que o Deus que se revela não mente nem contradiz a Si mesmo.
No final, a lição é clara: todo pressuposicionalismo que não ancorar firmemente na revelação proposicional da Escritura como verdade idêntica no ponto de contato corre o risco de escorregar para o misticismo ou para a incompreensibilidade perpétua. Clark viu isso com lucidez. Van Til trouxe contribuições valiosas contra a neutralidade, mas sua ênfase excessiva na analogia gerou mais névoa do que luz.
O cristão leigo não precisa escolher lado por lealdade tribal. Basta testar pelo critério que já vimos: qual posição forma um sistema coerente, não contraditório e abrangente? A revelação clara de Deus na Sua Palavra deve ser o axioma que ilumina, não o véu que obscurece.
Deus não nos chamou para abraçar paradoxos irresolúveis como virtude. Ele nos chamou para conhecer a verdade, e a verdade nos libertará.
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