Por Yuri Schein
Todo cristão que adota a Escritura como axioma último e rejeita a autonomia humana chega inevitavelmente ao tema da causalidade. Aqui a diferença entre Gordon Clark e Vincent Cheung não é mera preferência de escola, mas até onde estamos dispostos a deixar Deus ser Deus sem deixar sobras para a criatura.
Clark avançou muito. Ele destruiu a ideia de que os sentidos transmitem conhecimento por si mesmos, defendeu o escrituralismo puro e reconheceu explicitamente que o que os teólogos chamam de “causas secundárias” funciona, na prática, como ocasiões — exatamente como Malebranche descrevia. Clark via com clareza que a mente humana não gera conhecimento de forma autônoma: é Deus quem ilumina. No entanto, Clark ainda manteve certa tensão. Ele preservou um espaço para causas secundárias no sistema confessional e não levou o ocasionalismo até suas últimas consequências em todos os pontos, especialmente na aplicação prática da metafísica.
Cheung, partindo do mesmo solo clarkiano, remove qualquer resíduo de independência. Para ele, Deus é a única causa verdadeira de todos os eventos, pensamentos e crenças. Não existem causas secundárias reais no sentido de produzirem efeitos por poder próprio — são meras ocasiões em que Deus age diretamente. Isso não é exagero: é a aplicação honesta e sem concessões da soberania divina sobre toda a realidade, incluindo a epistemologia. Se Deus decreta e sustenta todas as coisas, então Ele também causa diretamente cada ato mental e cada crença. O occasionalismo cheunguiano elimina de vez o mito de que o homem contribui causalmente para o conhecimento ou para a história.
Muitos clarkianos torcem o nariz para Cheung exatamente neste ponto. Acusam-no de radicalismo excessivo, de ignorar as causas secundárias da Confissão ou de tornar Deus autor do mal de forma problemática. Mas a verdade é outra. Quem lê Clark com honestidade percebe que ele mesmo flertou fortemente com o occasionalismo e que Cheung apenas seguiu a lógica até o fim, sem medo de consequências. A Escritura não apresenta um universo onde partículas ou mentes finitas possuem poder causal independente. Ela apresenta um Deus que “faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” — sem exceções, sem zonas neutras, sem causalidade autônoma.
O ocasionalismo não destrói a responsabilidade humana: ele a coloca no devido lugar, dentro do decreto. O homem age de acordo com sua natureza, mas essa natureza e cada ação dela são sustentadas e causadas por Deus no nível mais profundo. Isso não é fatalismo pagão. É soberania bíblica aplicada sem compromisso com o humanismo residual que ainda infecta grande parte da teologia reformada.
Cheung acerta onde muitos param no meio do caminho. Ele não suaviza a doutrina para ficar mais palatável aos que ainda querem salvar algum pedaço de autonomia. Ao afirmar que Deus causa diretamente todo pensamento, Cheung torna impossível qualquer pretensão de neutralidade ou de livre exame autônomo da revelação. Ou o homem pensa cativo à Palavra, ou pensa em vão.
O axioma continua sendo a Escritura, não Clark e nem Cheung. Mas quem examina os dois com os critérios de coerência, necessidade e não-contradição verá que Cheung representa o desdobramento mais consistente do pressuposicionalismo escritural quando se leva a sério a negação total da autonomia. Clark abriu a porta. Cheung entrou e fechou as janelas para que nenhuma brisa humanista volte a entrar.
O cristão leigo não precisa ter medo dessa radicalidade. Pelo contrário: ela traz descanso. Se Deus causa até mesmo os meus pensamentos quando me ilumina pela Sua Palavra, então minha fé não depende da fragilidade da minha mente, mas da fidelidade dAquele que sustenta todas as coisas. Isso não é exagero. É simplesmente deixar Deus ser o único ator real no palco da realidade.
Que o Senhor nos livre de qualquer concessão à criatura e nos faça ver claramente que Nele vivemos, nos movemos e existimos — sem exceções.
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