Por Yuri Schein
Muitos recorrem a Mateus 19 como se fosse o túmulo definitivo da poligamia masculina. “Jesus voltou ao padrão original de um homem e uma mulher!”, exclamam com ar de vitória. Mas essa leitura é superficial, sentimental e guiada mais pelo romantismo ocidental do que pela exegese escrituralista rigorosa. Vamos dissecar o texto com honestidade.
Os fariseus se aproximam de Jesus e perguntam: “É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?” (Mateus 19:3). O contexto é divórcio, não poligamia. Eles não perguntaram “um homem pode ter mais de uma esposa?”. Perguntaram sobre o direito de descartar a esposa por qualquer motivo — a mesma mentalidade liberal e destruidora que eles praticavam.
Jesus responde voltando à criação: “Não lestes que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher, e disse: Por isso deixará o homem pai e mãe, e se unirá à sua mulher, e serão os dois uma só carne?” (Mateus 19:4-5). Ele cita Gênesis 2:24. Depois conclui: “Assim, não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (v.6).
Aqui está o ponto crucial que os opositores da poligamia mascaram: Jesus está restaurando a doutrina do casamento contra o divórcio fácil e frívolo. Ele está condenando a prática de trocar de esposa como quem troca de roupa. O foco é a permanência e a unidade de uma aliança conjugal que Deus uniu. Não há uma única palavra condenando o homem que, além da primeira esposa, toma outra sem repudiar a primeira.
Se Mateus 19 abolisse toda poligamia, Jesus teria dito algo como: “Desde o princípio foi um homem e somente uma mulher, e nunca mais que uma”. Ele não disse isso. Ele reforçou o ideal criacional contra a dissolução do vínculo. O padrão “uma só carne” fala da unidade exclusiva e permanente entre um homem e cada uma de suas esposas, não necessariamente da exclusividade numérica absoluta.
Observe ainda que Jesus, ao ser questionado sobre o divórcio, não aproveitou para atacar a poligamia que existia entre os judeus do primeiro século. Se ela fosse pecado grave, esse era o momento perfeito para condená-la publicamente. Ele não o fez. Em vez disso, permitiu que o argumento permanecesse no campo do divórcio.
Mais adiante, quando os discípulos se espantam com a dureza do ensino sobre divórcio e dizem “se assim é a condição do homem com a mulher, não convém casar”, Jesus não responde falando de poligamia como alternativa. Mas novamente, o silêncio aqui não é aprovação universal, mas demonstra que o tema do momento era outro.
A aplicação pressuposicional é clara: Mateus 19 destrói o divórcio sem causa bíblica e o adultério, mas não toca na poligamia masculina regulada do Antigo Testamento. Transformar o ideal criacional (“um homem e uma mulher” como modelo) em proibição absoluta é o mesmo erro dos fariseus: elevar uma boa norma a mandamento humano que vai além do que Deus revelou. Deus permitiu, regulou e até deu múltiplas esposas a Davi (2 Samuel 12:8) sem jamais chamar isso de violação do padrão de “uma só carne”.
Quem realmente crê na soberania absoluta de Deus sabe que Ele não se contradiz. O Deus de Gênesis 2 é o mesmo que regulou a poligamia em Deuteronômio e o mesmo que inspirou Mateus 19. Se Ele quisesse abolir completamente a possibilidade de poligamia masculina, teria falado com a mesma clareza com que condenou a homossexualidade, o incesto e o adultério.
Mateus 19 não é o texto que muitos imaginam. É um poderoso golpe contra o divórcio moderno em série e contra o adultério, mas não contra o homem que, com justiça, provisão e temor a Deus, cobre mais de uma mulher sob sua responsabilidade.
O axioma é a Escritura inteira — não o versículo isolado lido com óculos românticos do século XXI.
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