Por Yuri Schein
Muitos usam o argumento de que “não há nenhum caso de poligamia no Novo Testamento” como prova definitiva de que ela foi abolida. Isso soa piedoso à primeira vista, mas desmorona quando testado à luz da Escritura inteira e da soberania de Deus.
Primeiro, o Novo Testamento não é um código civil completo nem um manual exaustivo de todas as práticas sociais permitidas. Seu foco principal é o anúncio do evangelho, a formação da igreja, a conduta ética diante da iminente volta de Cristo e a transição da antiga para a nova aliança. O silêncio sobre muitos temas regulados no Antigo Testamento não significa proibição automática. O Novo Testamento também não registra casos de escravidão hebraica regulada, de guerra santa ou de levirato, mas ninguém usa esse silêncio para declarar que todos esses institutos foram intrinsecamente banidos.
Segundo, o texto mais relevante aponta justamente na direção oposta. Quando Paulo exige que o presbítero seja “marido de uma só mulher” (1 Timóteo 3:2; Tito 1:6), ele está estabelecendo um padrão mais elevado para liderança, não uma proibição universal para todos os cristãos. Se a poligamia fosse impossível ou inexistente entre os convertidos, essa exigência seria desnecessária. O fato de o apóstolo precisar especificar “uma só mulher” para os que desejam ser bispos sugere que a prática ainda existia entre os judeus convertidos e que a igreja precisava distinguir os mais aptos para o ofício. É uma qualificação para liderança, não uma lei moral absoluta para todo o povo de Deus.
Terceiro, o contexto cultural do Império Romano favorecia a monogamia oficial entre os gentios. A poligamia era mais comum entre judeus do primeiro século, mas o evangelho se espalhou rapidamente entre os gentios, onde a prática já era rara ou inexistente. Não era necessário Paulo escrever longos tratados condenando algo que não era problema pastoral na maioria das igrejas. O apóstolo atacou duramente o adultério, a fornicação e toda impureza sexual, mas não dirigiu condenação específica contra a poligamia masculina regulada.
Além disso, o ideal criacional de “uma só carne” (Mateus 19) é usado contra o divórcio fácil, não contra a poligamia. Jesus não aproveitou a ocasião para condenar a prática que existia no Antigo Testamento e que Deus mesmo havia permitido e, em alguns casos, dado a Seus servos. Transformar o ideal em proibição universal é o mesmo erro farisaico de elevar tradições humanas acima da revelação clara.
Quem aceita a soberania absoluta entende: se Deus quisesse abolir completamente a poligamia masculina na nova aliança, Ele teria falado com clareza, como falou sobre a circuncisão, os sacrifícios e as leis alimentares. O silêncio qualificado, combinado com a exigência apenas para presbíteros, mostra continuidade, não revogação total.
A ausência explícita de exemplos de poligamia no Novo Testamento não prova proibição. Prova apenas que o foco da revelação mudou para a pureza da igreja e para o testemunho em um contexto gentílico majoritariamente monogâmico. O axioma continua sendo a Escritura inteira, não o argumento do silêncio seletivo.
Que o cristão examine com honestidade, sem deixar o romantismo moderno ou o medo de ofender a cultura ditar sua hermenêutica.
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