Por Yuri Schein
Existe uma ficção moderna que se repete como mantra: “precisamos ser neutros”, “vamos analisar sem pressupostos”, “deixe os fatos falarem por si”. Isso não é apenas ingênuo, é filosoficamente impossível. A chamada neutralidade é o disfarce mais elegante da covardia intelectual.
Todo pensamento parte de pressupostos. Isso não é opinião; é estrutura lógica inevitável. Quando alguém afirma ser neutro, já assumiu uma posição: a de que a razão humana pode operar independentemente de qualquer autoridade última. Esse é o dogma oculto. Não existe “ponto zero” epistemológico, existe apenas a escolha de qual autoridade será o fundamento do conhecimento.
O empirista diz: “confie nos sentidos”. Mas por que os sentidos seriam confiáveis? Ele não pode provar isso sem usar os próprios sentidos, um círculo vicioso. O racionalista afirma: “confie na razão”. Mas por que a razão é confiável? Novamente, ele usa a própria razão para justificar a razão. Parabéns: mais um círculo.
A neutralidade, portanto, não é ausência de pressupostos é apenas ignorância deles.
Na prática, o discurso da neutralidade serve como arma retórica. Ele cria a ilusão de superioridade: “eu sou imparcial, você é enviesado”. Só que o “imparcial” já está comprometido com uma cosmovisão, geralmente secular, autônoma e, ironicamente, dogmática.
E aqui está o golpe final: se ninguém é neutro, então a questão real não é “quem está livre de pressupostos”, mas “quais pressupostos são verdadeiros”.
Essa mudança destrói o teatro intelectual moderno.
Porque agora não adianta se esconder atrás de “dados”, “ciência” ou “análise técnica”. Tudo isso depende de fundamentos anteriores: lógica, uniformidade da natureza, confiabilidade da mente, todos pressupostos que não podem ser provados empiricamente.
Ou seja: o debate nunca foi sobre fatos isolados, mas sobre o fundamento que torna qualquer fato inteligível.
A neutralidade é confortável porque evita esse confronto. Ela permite que o indivíduo finja que não precisa justificar sua base última. Mas essa fuga tem um preço: incoerência.
O homem que diz “não tenho pressupostos” já se contradiz no ato de falar.
A verdadeira honestidade intelectual começa quando alguém admite: “sim, eu parto de um fundamento”. A partir daí, o debate deixa de ser superficial e se torna real.
Então da próxima vez que alguém vier com o discurso de neutralidade, não se impressione. Não é profundidade é maquiagem filosófica.
E como toda maquiagem, sai com água.
Ou, neste caso, com lógica.
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